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| Chegada de Cabral ao Brasil |
Como já se questionava o nosso grande poeta Renato Russo, quando cantava "Que país é esse?" ; a qual respondia uma grande massa de fãs: "É a porra do Brasil!" Eu me pergunto: Como é que o Brasil se tornou esta porra de país?
Por que, apesar de todos os nossos esforços, ainda somos um gigante medíocre que evolui a passos de formiga? Por que ainda sofremos com o atraso mental, tecnológico, moral, intelectual, burocrático, político, e por aí vai?
Ao meu ver, o recente "sucesso" do Brasil no exterior é mais um golpe de sorte, que propriamente o resultado de um trabalho árduo. A recente crise econômica européia, transformou a nós, (até agora parcialmente protegidos da crise) no país do futuro, o " gigante adormecido". Isso porque somos um país de economia travada, truncada. Num país onde os juros são absurdos, os impostos indecentes e onde o governo não investi quase nada em infra-estrutura, fica fácil entender porque ainda não fomos para a bancarrota.
Como é que queremos ser país de primeiro mundo, se nem a nossa internet funciona decentemente? Observação: é uma das mais caras do mundo! Como é que queremos ser um mercado competitivo, se a nossa logística interna é atravancada por estradas em péssimo estado de conservação, portos em quantidades insuficientes e carentes de maquinários modernos, que agilizem a movimentação de cargas. Isso sem falar nas nossas vias férreas, a nossa burocracia macilenta, desigualdade social e por ai vai. É muita ambição pra pouca ação!
Comecei a entender certos padrões de comportamento do brasileiro, assim que li trechos do livro "Raízes do Brasil" do sociólogo Sérgio Buarque de Holanda. Apesar de alguns críticos não concordarem com ele em muitas passagens do livro, eu particularmente, concordo com muitas delas. O sociólogo afirma que os nossos problemas de governo, de progresso, social, são derivadas do nosso processo deficiente de colonização. Como diz no trecho:
Essa exploração dos trópicos não se processou, em verdade, por um empreendimento metódico e racional, não emanou de uma vontade construtora e enérgica: fez-se antes com desleixo e certo abandono. Dir-se-ia mesmo que se fez apesar de seus autores. E o reconhecimento desse fato não constitui menoscabo à grandeza do esforço português. (Sérgio Buarque de Holanda. "Raízes do Brasil" ,pág. 43. 26.ed. Companhia das Letras, 1995)
Aos portugueses que cá aportavam, não interessava fincar raízes, investir no novo país, por ordem na bagunça; o que lhes interessava era a exploração das nossas riquezas e da nossa gente. Usando da máxima do fazer de tudo para não ter que fazer nada, os portugueses não botaram a mão na massa pra nada, muito pelo contrário, mau aportaram e já queriam subjugar os índios para que eles fizessem todo o trabalho braçal, porque afinal, nobres como eles não poderiam se rebaixar a trabalhos pesados. Uma coisa temos que reconhecer, nenhum povo domina tão bem a arte de delegar como os portugas.
É claro, que nenhum país europeu que se embrenhou na digníssima tarefa de colonizar povos "selvagens", foi menos calhorda que a raça portuguesa. Muito pelo contrário, os ingleses, os holandeses, os franceses, estão no mesmo pé de igualdade em matéria de exploração e matança que os nossos patrícios. Mas, como costumamos dizer de certos políticos brasileiros; eles roubaram, mas fizeram!
Vamos tomar como exemplo um país como a Austrália; em muitos aspectos, bem parecido com o nosso, principalmente em questão de clima e posição geográfica, mas que teve um destino bem diferente do nosso. Por quê? Por ter sido colonizado por ingleses, um povo de maioria protestante, e que em tese tem o trabalho árduo como instrumento para dignificar o homem. Como podemos ver no trecho do livro, Raízes do Brasil:
Um fato que não
se pode deixar de tomar em consideração no exame da psicologia
desses povos é a invencível repulsa que sempre lhes inspirou toda
moral fundada no trabalho. [...] É compreensível assim, que jamais
se tenha naturalizado entre gente hispânica a moderna religião do
trabalho e o apreço a atividade utilitária. Uma digna ociosidade
sempre pareceu mais excelente e até mais nobilitante, a um bom
português, ou a um espanhol, do que a luta insana pelo pão de cada
dia. O que ambos admiram com o ideal é uma vida de grande senhor,
exclusiva de qualquer esforço, de qualquer preocupação. E assim,
enquanto povos protestantes preconizam e exaltam largamente o esforço
manual, as nações ibéricas colocam-se ainda largamente no ponto de
vista da Antiguidade Clássica. (Sérgio Buarque de Holanda. "Raízes do Brasil", pág. 38. 26. ed. Companhia das Letras, 1995)
Ou ainda no livro de Salvatore D´Onofrio, "Literatura Ocidental" que afirma:
Considerando o enriquecimento (mesmo ilícito, através da usura como um sinal da benção divina, o Calvinismo santificou os empreendimentos industriais, a atividade comercial e a especulação financeira. Daí alguns historiadores terem sustentado a tese da existência de uma relação muito estreita entre a ética protestante e o triunfo do sistema capitalista. Essa tese fornece o motivo ideológico para a explicação do fato histórico de que os povos de religião protestante são mais ricos e mais desenvolvidos. (Salvatore D'Onofrio. “Literatura Ocidental”, pág. 226. 2. ed. Editora Ática, 2004)Parece até picuinha de brasileiro, não é? Botar a culpa das nossas mazelas nos portugueses; mas citarei um grande português, que assim como nós não estava satisfeito com o povo da terrrrrinha. Com a palavra o Digníssimo Senhor Eça de Queiroz:
A minha ambição seria pintar a sociedade, tal qual a fez o Constitu-cionalismo desde 1830 – e mostrar-lhe como um espelho, que tristepaís eles formam – eles e elas. É o meu fim na “Cenas da Vida Portugesa”.É necessário acutilar o mundo oficial, o mundo sentimental, o mundo literário,o mundo agrícola, o mundo supersticioso. (Carta a Teófilo Braga.Prefácio de Isabel Margato em “Os Maias” de Eça de Queiroz. Pág.14. 5.ed.Editora Ediouro, 2001.)
Mas sejamos francos com nós mesmos; os portugueses erraram feio conosco, mas nós perpetuamos os erros deles. É fácil sentar a bunda na cadeira e culpar os outros pelas nossas desgraças. Assim como Sérgio Buarque de Holanda, acredito que precisamos tomar consciência de nossas raízes e deixar tudo isso no passado. Já está mais do que na hora de nos libertarmos dessa herança de comodismo, ociosidade e de servilismo.
Acho que nesse 7 de Setembro, devemos proclamar de uma vez por todas a nossa independência do nosso passado inglório, com vistas num futuro melhor. E acho que isso só vai acontecer quando o povão discutir mais sobre política e cultura, e menos sobre quem matou quem na novela das nove!
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| Grito do Ipiranga Bom Feriado!
Até mais!
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P.S. Leia mais sobre o livro de Sérgio Buarque de Holanda no blog História em Movimento no link:http://diegoricoy.blogspot.com.br/2009/09/raizes-do-brasil-sergio-buarque-de.html



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