sexta-feira, 7 de setembro de 2012

A Antropologia do Brasileiro

Chegada de Cabral ao Brasil

   Como já se questionava o nosso grande poeta Renato Russo, quando cantava "Que país é esse?" ; a qual respondia uma grande massa de fãs: "É a porra do Brasil!" Eu me pergunto: Como é que o Brasil se tornou esta porra de país?
   Por que, apesar de todos os nossos esforços, ainda somos um gigante medíocre que evolui a passos de formiga? Por que ainda sofremos com o atraso mental, tecnológico, moral, intelectual, burocrático, político, e por aí vai?
    Ao meu ver, o recente "sucesso" do Brasil  no exterior é mais um golpe de sorte, que propriamente o resultado de um trabalho árduo. A recente crise econômica européia, transformou a nós, (até agora parcialmente protegidos da crise) no país do futuro, o " gigante adormecido". Isso porque somos um país de economia travada, truncada. Num país onde os juros são absurdos, os impostos indecentes e onde o governo não investi quase nada em infra-estrutura, fica fácil entender porque ainda não fomos para a bancarrota. 
     Como é que queremos ser país de primeiro mundo, se nem a nossa internet funciona decentemente? Observação: é uma das mais caras do mundo! Como é que queremos ser um mercado competitivo, se a nossa logística interna é atravancada por estradas em péssimo estado de conservação, portos em quantidades insuficientes e carentes de maquinários modernos, que agilizem a movimentação de cargas. Isso sem falar nas nossas vias férreas, a nossa burocracia macilenta, desigualdade social e por ai vai. É muita ambição pra pouca ação!   

     Comecei a entender certos padrões de comportamento do brasileiro, assim que li trechos do livro "Raízes do Brasil" do sociólogo Sérgio Buarque de Holanda. Apesar de alguns críticos não concordarem com ele em muitas passagens do livro, eu particularmente, concordo com muitas delas. O sociólogo afirma que os nossos problemas de governo, de progresso, social, são derivadas do nosso processo deficiente de colonização. Como diz no trecho: 

Essa exploração dos trópicos não se processou, em verdade, por um empreendimento metódico e racional, não emanou de uma vontade construtora e enérgica: fez-se antes com desleixo e certo abandono. Dir-se-ia mesmo que se fez apesar de seus autores. E o reconhecimento desse fato não constitui menoscabo à grandeza do esforço português. (Sérgio Buarque de Holanda. "Raízes do Brasil" ,pág. 43. 26.ed. Companhia das Letras, 1995)
     Aos portugueses que cá aportavam, não interessava fincar raízes, investir no novo país, por ordem na bagunça; o que lhes interessava era a exploração das nossas riquezas e da nossa gente. Usando da máxima do fazer de tudo para não ter que fazer nada, os portugueses não botaram a mão na massa pra nada, muito pelo contrário, mau aportaram e já queriam subjugar os índios para que eles fizessem todo o trabalho braçal, porque afinal, nobres como eles não poderiam se rebaixar a trabalhos pesados. Uma coisa temos que reconhecer, nenhum povo domina tão bem a arte de delegar como os portugas.
      É claro, que nenhum país europeu que se embrenhou na digníssima tarefa de colonizar povos "selvagens", foi menos calhorda que a raça portuguesa. Muito pelo contrário, os ingleses, os holandeses, os franceses, estão no mesmo pé de igualdade em matéria de exploração e matança que os nossos patrícios.  Mas, como costumamos dizer de certos políticos brasileiros; eles roubaram, mas fizeram!
      Vamos tomar como exemplo um país como a Austrália; em muitos aspectos, bem parecido com o nosso, principalmente em questão de clima e posição geográfica, mas que teve um destino bem diferente do nosso. Por quê? Por ter sido colonizado por ingleses, um povo de maioria protestante, e que em tese tem o trabalho árduo como instrumento para dignificar o homem. Como podemos ver no trecho do livro, Raízes do Brasil:

Um fato que não se pode deixar de tomar em consideração no exame da psicologia desses povos é a invencível repulsa que sempre lhes inspirou toda moral fundada no trabalho. [...] É compreensível assim, que jamais se tenha naturalizado entre gente hispânica a moderna religião do trabalho e o apreço a atividade utilitária. Uma digna ociosidade sempre pareceu mais excelente e até mais nobilitante, a um bom português, ou a um espanhol, do que a luta insana pelo pão de cada dia. O que ambos admiram com o ideal é uma vida de grande senhor, exclusiva de qualquer esforço, de qualquer preocupação. E assim, enquanto povos protestantes preconizam e exaltam largamente o esforço manual, as nações ibéricas colocam-se ainda largamente no ponto de vista da Antiguidade Clássica. (Sérgio Buarque de Holanda. "Raízes do Brasil", pág. 38. 26. ed. Companhia das Letras, 1995)


       Ou ainda no livro de Salvatore D´Onofrio, "Literatura Ocidental" que afirma:
                             Considerando o enriquecimento (mesmo ilícito, através da usura      como um sinal da benção divina, o Calvinismo santificou os empreendimentos industriais, a atividade comercial e a especulação financeira. Daí alguns historiadores terem sustentado a tese da existência de uma relação muito estreita entre a ética protestante e o triunfo do sistema capitalista. Essa tese fornece o motivo ideológico para a explicação do fato histórico de que os povos de religião protestante são mais ricos e mais desenvolvidos. (Salvatore D'Onofrio. “Literatura Ocidental”, pág. 226. 2. ed. Editora Ática, 2004)         
      Parece até picuinha de brasileiro, não é? Botar a culpa das nossas mazelas nos portugueses; mas citarei um grande português, que assim como nós não estava satisfeito com o povo da terrrrrinha. Com a palavra o Digníssimo Senhor Eça de Queiroz:

          A minha ambição seria pintar a sociedade, tal qual a fez o Constitu-
        cionalismo desde 1830 – e mostrar-lhe como um espelho, que triste
        país eles formam – eles e elas. É o meu fim na “Cenas da Vida Portugesa”.
        É necessário acutilar o mundo oficial, o mundo sentimental, o mundo literário,
        o mundo agrícola, o mundo supersticioso. (Carta a Teófilo Braga.
        Prefácio de Isabel Margato em “Os Maias” de Eça de Queiroz. Pág.14. 5.ed.     
        Editora Ediouro, 2001.) 
      Mas sejamos francos com nós mesmos; os portugueses erraram feio conosco, mas nós perpetuamos os erros deles. É fácil sentar a bunda na cadeira e culpar os outros pelas nossas desgraças. Assim como Sérgio Buarque de Holanda, acredito que precisamos tomar consciência de nossas raízes e deixar tudo isso no passado. Já está mais do que na hora de nos libertarmos dessa herança de comodismo, ociosidade e de servilismo. 
     Acho que nesse 7 de Setembro, devemos proclamar de uma vez por todas a nossa independência do nosso passado inglório, com vistas num futuro melhor. E acho que isso só vai acontecer quando o povão discutir mais sobre política e cultura, e menos sobre quem matou quem na novela das nove!

Grito do Ipiranga



Bom Feriado!

Até mais!







P.S. Leia mais sobre o livro de Sérgio Buarque de Holanda no blog História em Movimento no link:http://diegoricoy.blogspot.com.br/2009/09/raizes-do-brasil-sergio-buarque-de.html


domingo, 2 de setembro de 2012

Mulheres do Amanhã




  Recentemente me tornei tia pela segunda vez, mas agora de uma linda garotinha. Ela acabou de completar nove meses, e já é como toda criança da sua idade, muito curiosa. Parece que vai dar muita dor de cabeça para os pais, porque ninguém segura essa pequenina quando ela quer alguma coisa.
  O fato é que me peguei pensando dias destes, em como será o mundo quando ela estiver com a idade da mãe dela.
  
  Quais serão os desafios que ela terá que enfrentar? As mulheres ainda terão que conquistar seu lugar no grito, como fizemos e fazemos? Dá medo só de pensar!
   O certo é que hoje vivemos uma liberdade que nunca tivemos, se levarmos em consideração a nossa história dentro da história mundial. Ainda temos muito a conquistar, mas desde a geração de minha mãe, vivemos um processo de mudanças nunca antes sonhado. 

    A nossa luta por autonomia gerou mudanças tão significativas, em toda a sociedade, que obrigou até os homens a reverem seus papéis e seus conceitos.

    Agora pense em todas as mulheres, em todos os cantos mais remotos deste planeta, que morreram em nome desse ideal; e principalmente aquelas que ainda morrem pelas mãos da ignorância, intolerância, autoridades religiosas e indiferença. Por tudo isso, não só devemos honra-las vivendo a nossa liberdade, como devemos usa-la em prol das milhares de mulheres que não usufruem dela.
     Não sou feminista radical, mas sei o que é ser agredida pelo simples fato de ser mulher; sei o quanto é difícil viver com isso, e posso até entender aquelas que pregam a vertente mais radical do feminismo.
    Quando você trabalha num ambiente predominantemente masculino, é quase que impossível sobreviver sem ter que se impôr com mais agressividade, para ter o mínimo de respeito.

   Mas, ainda sim, acredito que devemos cultivar com zelo as nossas maiores virtudes; afabilidade, graça, delicadeza, discernimento, tolerância, intuição e afeto. Esses são dons femininos, e aquilo que o mundo mais necessita no momento, para que seja um lugar mais suportável.
    A pílula anticoncepcional foi um marco científico e na nossa história, nos proporcionando a liberdade de escolha. Foi praticamente o que impulsionou a nossa autonomia em todos os campos de nossa vida cotidiana. Mas parece que muitas mulheres, hoje em dia, vivem essa liberdade de forma exacerbada. No  nosso afã de igualdade com os homens, tomamos para nós  certos aspectos masculinizados, que ao meu ver vulgarizam as mulheres.
     Como em tudo na vida, nós mulheres precisamos encontrar o nosso centro, o equilíbrio. Queremos tanto ser donas de nosso próprio destino, lutamos tão arduamente pelo nosso espaço, que em alguns momentos nos perdemos, nos distanciamos da nossa essência.
   Espero que as mulheres de amanhã, assim como a minha pequenina, encontrem esse equilíbrio; que tenham pela frente um horizonte mais amistoso, e que tenham mais respeito por si mesmas.


  Sempre quando penso nesse assunto, me lembro de uma música dos Eurythmics, "Sisters are doin' it for themselves", que fala justamente sobre este assunto. Se você for um ser curioso como eu, dá uma olhadinha no vídeo aí!

  

Até mais,